Aparte
Opinião - O Brasil já era assim

[*] Rômulo Rodrigues

É verdade e assusta. Mas, o que provocou a ascensão do Jair Messias Bolsonaro e aflorou o que há de pior no ser humano, com o nome de bolsonarismo, não foi criado pelo Jair, nem pelo Mourão, nem pelo Vilas Boas, nem pelo Braga Neto e por nenhum deles.

O fenômeno está na epigênese, teoria segundo a qual o embrião se desenvolve a partir de um zigoto amorfo ou indiferenciado. O zigoto em questão foi o ovo da serpente que pariu Jair Messias Bolsonaro.

Porém, na sociedade brasileira, e não é de agora, milhões deles foram formados a partir de gametas defeituosos, e uma parte deste contingente acampou na Praça dos Três Poderes na capital federal pedindo que sejam adotadas medidas que levam, a curto prazo, à diminuição acelerada de sua espécie. Ou ao aniquilamento total.

Seria cômico se não fosse tão trágico ver, ouvir e ler o que a legião de descerebrado comemorava na madrugada de 8 para 9 de setembro - uma fake news que lhes fora oferecida como ração virtual: “O presidente Jair Bolsonaro acaba de decretar o estado de sítio”.

Nada surpreendente para uma boiada que vibra quando o açougueiro constrói cercas nos currais, dizendo que é para sua segurança e proteção, ao mesmo tempo em que faz selfie com o Queiroz para registrar que estava defendendo a fazenda de ladrões, corruptos e milicianos.

O que veio à tona é tão inusitado que seria capaz de provocar uma reanálise dos mais profundos conhecedores do surrealismo, quase centenário.

Foi como se expressaram em vídeos alguns eufóricos motoristas de caminhões possantes do agronegócio que incorporaram com status de grandeza o perfil de caminhoneiros.

Uma dupla de homens brancos, machos e de boas famílias do sul, pulava abraçada, dizendo: “Boa noite pessoal, aqui direto de Brasília para dizer que conseguimos, fizemos a nossa parte, estado de sítio. Vamos tirar os vagabundos de lá. Conseguimos tirar os 11, fizemos nossa parte, estamos aqui na concentração, participamos da história do Brasil. Nós conseguimos gente, e trago estas notícias para vocês”.

O presidente acaba de decretar estado de sítio. Em primeira mão aí para todo mundo, disse o homem que estava filmando.

Em outro vídeo, um motorista negro foi às lágrimas durante a gravação. “Meus amigos, minhas amigas de todo o Brasil. Desculpem pela emoção, mas a nossa luta, a nossa guerra, valeu a pena.

Ficamos sabendo agora que o presidente Jair Messias Bolsonaro resolveu agir e a partir de agora o Brasil está em estado de sítio”.

Desculpem. Ninguém de bom senso e sã consciência pode ficar abismado ou incrédulo com os posicionamentos de Artur Lira, Luiz Fux, Rodrigo Pacheco e o recuo de Jair Bolsonaro em uma nota escrita, pasmem, por Michel Temer.

Interessante que chegaram ao fundo do poço da indecência, tendo que entregar a tarefa de redigir o texto final da ópera bufa ao mais inexpressivo entre os canastrões que eles, da elite do atraso, recorreram para construir uma ponte que levou o país da condição de 6ª economia mundial para o retorno ao mapa da fome.

Interpretando os papeis de carpideiras, empresários dos setores de varejo, automotivo, têxteis, plástico, aéreo, turismo, telecomunicações e infraestrutura dizem que Bolsonaro inviabilizou o país.

Mas não falaram nada da terceirização e da reforma trabalhista que acabaram com o poder de consumo de mais de 30 milhões de trabalhadoras e trabalhadores que, simplesmente, compravam seus produtos.

O perigo que ronda o Brasil é que já há uma tentativa de consagrar Alexandre Moraes como o salvador da pátria que um dia foi Joaquim Barbosa e depois Sérgio Moro.

[*] É sindicalista aposentado e militante político.

 

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