
“Não o amor, ...”, de Andrea Villa-Lobos: para urdir de motivos novos o bordado antigo
Nesta sexta-feira, 22, será lançado na Livraria Escariz - das 18h às 22 horas, avenida Jorge Amado, 960, Garcia-Jardins, o livro “Não o amor, mas os arredores”, de Andrea Villa-Lobos, uma poeta trans.
A poesia desta autora margeia uma carta de amor sem sê-lo e também sem selo. Seria acanhamento diante da constatação pessoana de que todas as cartas de amor são ridículas? É de duvidar.
Mas, enfim, este é o oitavo livro da escritora Andrea Villa-Lobos, e o primeiro que ela assina com o nome de mulher. Uma mulher trans. O estilo seguro conduz o leitor, com o melhor dos ritmos, pelas fibras sumarentas dos sentidos e das teias finas da ideia: confundem-se o carnal, o intimista e o universal.
A sensibilidade da autora é afinada como tem de ser essa ciência de perceber a relação estreita que há entre as folhas das palmeiras e as madeixas femininas: é um tal de arrumar madeixas/ pisar de saltos,/ dar de ombros…
A melancolia, quando dá as caras, é pungente: Há algo em nós /que desde a superfície /ao íntimo não se gosta […] Um humor nos recolhe /entre páginas de um livro /feito uma descorada rosa.
A selvageria do amor também tem seu tempo e seu tom, vai como que se produzindo por ondas ou - imagem sugestiva - por arquejos: à beira do roçado /no capim, no mato /por trás feito cavalo /e outros bichos tarados.
Trata-se de uma obra em que cintilam imagens tangentes ao amor e ao fazer poético. E a erudição, muito presente, parece uma garantia permanente de que há mais cintilações que uma leitura única pode alcançar.
O título do livro foi retirado do fragmento ou trecho 271 do Livro do Desassossego. Tem como epígrafe o poema Todas as cartas de amor, de Fernando Pessoa, e prossegue com um breve ensaio sobre o amor cingido pelo viés filosófico/psicanalítico.
O amor nos poemas de Andrea Villa-Lobos tenta apreender notas de um cheiro no rastro. Do amante perto ou distante, como se perscrutasse o escondido na sombra, na réstia, no escuro… na falta.
Por falar do muito de um tema universalmente muito já explorado, significa perseguir uma nova linguagem para as figuras de estilos, buscar tecidos raros, tintas outras, papéis significantes para vestir cenários, paisagens, tramas, enredos, personagens, e tracejar linhas, colorir o branco, o vazio, atento ao seu eco redobrando o inaudível, e então urdir de motivos novos o bordado antigo.




















