
carlos drummond de andrade: nele, o aziago da vida é reinvenção e busca do vir a ser
[*] gabriela peixoto lima
carlos drummond de andrade é e será sempre carlos drummond de andrade, e escreveu: “este tempo, e não outro, sature a sala, banhe os livros,/ nos bolsos, nos pratos se insinue: com sórdido ou potente clarão”. e se nos insinuarmos para a vida?
drummond, o poeta da melancolia, do sofrimento romântico, do lirismo perquiridor, nos sugere a insinuação - a interrupção da inércia. mais posteriormente neste poema “Os últimos dias”, ele também vai pedir pela luta da tristeza com a sua presa, para que ela veja e se assuste com “o dia entrando em explosões de confiança, esquecimentos, amor, ao fim da batalha perdida”.
porque no fim sabemos que a tristeza, em sua condição de infinitude como todas as coisas que estão em e entre nós, é uma batalha perdida - a tristeza é um sentimento infinito no tempo, e sua passagem no nosso espaço veste a cara dessa coisa que perderá para o brilho do sol, do amor, da confiança. ela, a tristeza, há de morrer, como todo sentimento morre.
como pode, novamente, o poeta da melancolia e do sofrimento romântico – ou do existencialismo mais preciso -, nos fazer ver o brilho do sol mais claro e a hora da vida mais certa?
eis uma faceta de drummond que só é possível perceber quando se abre para a sutileza do mundo. se estivermos atentos à malha do tempo que se move quando lemos poesia, vamos perceber o som da beleza balançar o elástico do tempo que envolve a todos nós, com sua onda se expandindo e atravessando esferas e dimensões.
e assim, através da palavra, muda-se o jeito e a vida. abrem-se caminhos para calcar novas possibilidades de ser, e por isso mesmo a poesia é alquimia - transmuta, transforma, purifica. mimetiza transformando.
mas não esqueçamos que melancolia e romantismo são virtudes necessárias para a subversão da realidade feia e cruel. sentir doer e dar a isso o olhar da estética, representar a dor pelo belo - é isso que têm feito os poetas em todos esses anos e séculos. sobretudo os bons. os ruins apenas replicam realidades, deixando à margem suas missões de criadores.
nesse tempo de áries, a gente se insinue para a vida. mostre sua cara, se mostre nos pratos, nos bolsos. sature as salas todas: ocupe o espaço que é seu. que este tempo de confiança, disposição e coragem se insinue para o mundo, solicitando a abertura das portas, das grades, das janelas, dos céus de todos os lugares.
a consciência de quem se é e o respeito por isso é a grande base necessária para fazer funcionar esse motor da revolução que anda enferrujado. se colocar no centro da própria vida exige, literalmente, fé e coragem – não no sentido messiânico.
fé de que a verdade de todo ser é a gentileza, e por isso mesmo nortear-se pelo verdadeiro eu, plenamente conectado com ele, não chega nem perto de esbarrar no egoísmo, pois se é gentil e atento. coragem para atravessar as ondas - sonoras, fluidas, aéreas - que poderão nos fazer cambalear ou até ceder no caminho em direção ao amor maior - à vida, a si mesmo, à todos os outros -, se não nos concentrarmos no que é nosso.
não tenhamos medo de transitar pela vida em baile, mesmo porque é de movimento que se faz o percurso. em tempos de caça, adentremos a mata sem medo. por fim, deixo as palavras que mais ressoam em mim e ao meu redor nesse momento: força, esforço, trabalho justo e dedicado à vida que se quer viver. consciência. transcendência de ego. desejar e querer - movimentar.
[*] é estudante do quinto semestre de letras língua portuguesa na universidade estadual de feira de santana, colaboradora na coordenação de comunicação e eventos do centro de cultura e arte da uefs, poeta e escritora das novas formas de ser e estar no mundo. tem 20 anos e é opção programática dela grafar tudo em caixa baixa.














