Marcos Santana: “São Cristóvão precisa renascer das cinzas”

Entrevista

Jozailto Lima

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Marcos Santana: “São Cristóvão precisa renascer das cinzas”

Publicado 12 de agosto 20h00 - 2017

São Cristóvão é uma cidade bonita, histórica, encantadora. Fundada em 1° de janeiro de 1590, é a mãe das demais cidades de Sergipe, de quem foi capital até o dia 17 de março de 1855. Mas, com o perdão da imagem grotesca, tem recebido um tratamento nos últimos 30 anos pior do que aquele que se dispensa aos cachorros de fateiras, para quem sobram pontapés e vísceras.

Como consequência, São Cristóvão é hoje uma cidade pobre. Opaca. A começar pela tristeza das suas igrejas e casarios, carentes de zelo e olhos externos que os espalhem para o mundo em seu real valor arquitetônico e turístico. Falta emprego ao seu povo. Nos últimos 25 anos, enquanto inflava a sua população, a cidade sofreu um brutal impacto de muitas interrupções de mandatos de prefeitos – fosse por morte, fosse por cassações.

Mas desde 1° de janeiro deste ano São Cristóvão tem um novo gestor com ideias equilibradas, luminosas e com um projeto arrojado, mas não megalômano, de recuperação desse tempo perdido. Trata-se de Marcos Santana, PMDB, 57 anos, casado, pai de três filhos e avô de sete netos.

Ele é um bancário de carreira da Caixa Econômica, teve uma vivência de sete anos na área privada, passando por uma grande indústria nacional e que tem formação acadêmica em Administração de Empresas e especialização em Gestão Urbana e Planejamento Municipal.

Outro dado bom em favor dele – e da cidade: conhece bem São Cristóvão. Mora nela, e não fora. A partir disso, e de uma série de planejamento, Marcos não tem dúvidas dos horizontes futuros da quinta maior cidade de Sergipe, com seus 88.118 habitantes, que ele acha que são em torno de 100 mil.

“São Cristóvão precisa renascer das cinzas, das sombras. E ela tem todo o aparato histórico para isso. Se lhe faltaram boa vontade e planejamento nos últimos tempos, com a gente isso não vai acontecer”, diz Marcos Santana. Para não ficar só no discurso, Marcos já pôs em andamento uma série de ações. Ele não quer mirar o passado. “Não gosto de olhar para trás”.

No começo deste mês, a gestão dele fez um seminário e levou a São Cristóvão uma série de investidores, inclusive portugueses. Marcos sabe que o desenvolvimento social e humano da sua cidade só virá por via do trabalho. “Precisamos atrair empresas para o município. Não há outra alternativa”, diz. Ele está mexendo em possibilidades de inserir a cidade no turismo religioso, resgatar turismo ecológico e fazer renascer o Festival de Arte de São Cristóvão.

Enfrentou e venceu 7 candidatos, para ser prefeito de sua terra
Ele é um bancário de carreira da Caixa Econômica

JLPolítica – Prefeito, foi grande o buraco das dificuldades administrativas encontrado em São Cristóvão?
Marcos Santana – Não gosto de olhar para trás. Mas há, sim, lacunas terríveis em diversas aspectos: financeiro, orçamentário, administrativo. E esse buraco, como você chamou, tem aparecido como bombas de efeito retardado. Por exemplo: recentemente, descobri que o governo que me antecedeu não recolheu nem um centavo à Previdência Social, responsável por 22% da folha. O problema não é a dívida: ele mascarava o percentual de gastos com pessoal. Ou seja, uma Prefeitura que dizia que gastava apenas 50% de sua receita com a folha de pagamento, na verdade, gastava muito mais, porque nesse valor não estavam computadas as despesas com a Previdência. Então, são bombas que a gente está descobrindo a todo momento.

JLPolítica – Essa foi a mais surpreendente?
MS – Foi. Mas tivemos outras: teve uma dívida previdenciária da ordem de R$ 50 milhões, que a gente está empenhando; dívidas com fornecedores empenhadas, mas sem lastro financeiro, da ordem de R$ 25 milhões. Fora as dos fornecedores que chegam e não há sequer empenho. E tem também as que foram empenhadas em exercícios anteriores que não estão computadas nesse valor.

A  CASA
“Já foi possível organizar a casa: é o que estamos fazendo ainda. Governando com austeridade, com responsabilidade e contrapondo as dificuldades com criatividade”

JLPolítica – O que foi possível fazer nestes sete meses para viabilizar a gestão?
MS – Já foi possível organizar a casa: é o que estamos fazendo ainda. Governando com austeridade, com responsabilidade e contrapondo as dificuldades com criatividade.

JLPolítica – Chegou a haver paralisação de algum serviço?
MS – Não, não houve. Temos um equipamento, que sofre reclamação pontual, no Eduardo Gomes, que é a única Urgência do município, e estava parada desde agosto do ano passado. A população tem questionado o fato de ainda estar fechada, mas estamos realizando obras de reparação no prédio e o procedimento de chamamento público para a contratação de entidades e organizações de limpeza que possam, na nossa avaliação, mais racionalmente possível, fazer com que uma instituição fora do município seja bem-gerida.

Teve uma vivência de sete anos na área privada

JLPolítica – Como fazer com o que Hospital Senhor dos Passos consiga atender bem à população?
MS – Boa pergunta. Inclusive, ontem pela manhã (a entrevista foi realizada na sexta), um morador do Eduardo Gomes, que é meu amigo, me ligou e perguntou se podia levar ao hospital uma funcionária que estava com dor. Falei que sim. Que devia levar, porque seria bem-atendido. Podia demorar, mas seria atendido. Se tiver que se internar, será internado. Se precisar transferir, será transferido. O que precisa para o Hospital Senhor dos Passos é divulgação. A população precisa saber disso.

JLPolítica – Qual a melhor tangente para São Cristóvão melhorar suas receitas e seu desenvolvimento humano?
MS – Precisamos atrair empresas para o município. Não há outra alternativa. E é isso que estamos fazendo. São Cristóvão precisa renascer das cinzas, das sombras. E ela tem todo o aparato histórico para isso. Se lhe faltaram boa vontade e planejamento nos últimos tempos, com a gente isso não vai acontecer. Semana passada, realizei um evento com o empresariado sergipano e também de fora do Estado – teve até empresário de Portugal –, onde apresentei as potencialidades do município em todos os setores, assim como a possibilidade de realizarmos PPPs – Parcerias Público-Privadas. Anunciei, inclusive, a construção de um Centro Administrativo e quero fazer isso a partir de uma PPP, garantindo ao investidor um período de retorno com pagamento de aluguel desse equipamento, para que ele possa investir e ganhar dinheiro.

RENASCER DAS CINZAS
“Precisamos atrair empresas para o município. Não há outra alternativa. E é isso que estamos fazendo. São Cristóvão precisa renascer das cinzas, das sombras. E ela tem todo o aparato histórico para isso”

JLPolítica – O evento que o seu Governo realizou há duas semanas, inclusive com empresários de fora, até portugueses, pode render algo de concreto para a cidade?
MS – Pode, sim, e muito. Inclusive não só entre o poder público e o empresariado, mas entre outras empresas e organizações. Por exemplo, o arcebispo de Aracaju, Dom João, estava presente no evento, e pretende construir num desses três equipamentos que temos aqui, um hotel de luxo, com possibilidade de realizar eventos e convenções. E os portugueses compraram a ideia na hora. Então, muita coisa pode ser feita.

JLPolítica – Qual o elo que o senhor faz entre a violência de São Cristóvão, que é relativamente alta, e a falta de ocupação de mão de obra pela comunidade?
MS – Eu vejo um elo perfeito. Mas há outra vertente, que é a proximidade com Aracaju. Mas, de fato, a desocupação pode gerar isso, e são 14 milhões de desempregados no Brasil.

É da cidade: conhece bem São Cristóvão

JLPolítica – Quanto por cento dos quase 100 mil sancristovenses consomem de São Cristóvão e deixa serviço aqui?
MS – Não tenho esse número, mas por observação, no máximo, uns 30%. O que é muito pouco.

JLPolítica – O senhor não acha que o potencial turístico do município está meio que relegado?
MS – Está completamente relegado. E aqui abro um parêntesis: quando falamos de turismo em São Cristóvão, a gente sempre tem a tendência de se referir ao que vem na Praça São Francisco e às suas igrejas. Mas não é só isso. O turismo de São Cristóvão vai além disso. Temos o religioso e o turismo ecológico, já que estamos às margens do Vaza-Barris. A Croa do Goré, inclusive, faz parte de São Cristóvão e não de Aracaju. Há um condomínio que vai se instalar na Mata do Veiga, próximo ao Matapuã, que já fica em São Cristóvão e vai trazer infraestrutura. Temos ilhas para atrair outros turistas também.

TURISMO
“Quando falamos de turismo em São Cristóvão, a gente sempre tem a tendência de se referir ao que vem na Praça São Francisco e as suas igrejas. Mas não é só isso. O turismo de São Cristóvão vai além disso”

JLPolítica – Esse trabalho deve ser feito apenas pelo governo municipal ou numa parceria com o Estadual?
MS – Tem que ser com o Governo do Estado também, porque só o municipal não dá conta. Mas nunca me coloco na condição de pedinte. Veja: ainda nessa área do turismo, com a ajuda do secretário de Turismo, Fábio Henrique, nós fomos para uma reunião com o BID – de onde saem os recursos para o Prodetur. Há um contrato em vigor com o Estado para realizar obras pelo Prodetur e há recursos suficientes, embora não haja projetos para esses recursos. Então, levei quatro projetos: o da recuperação do atracadouro do catamarã, que é antigo, da década de 90, e está deteriorado; o da recuperação do Cristo Redentor; o da recuperação da Bica dos Pintos e o da recuperação da João Bebe Água. Poderia muito bem ficar naquela de “não, isso é problema do Estado”. Mas não: fui lá e briguei por isso.

JLPolítica – O senhor se contenta com a recuperação ou quer a duplicação da João Bebe Água?
MS – Me contento com o alargamento. Na verdade, o Governo do Estado tem o projeto executivo pronto, é de 2010, do governo de Marcelo Déda. Está no DER. O que faltou foi vontade política para, por exemplo, inserir a João Bebe Água no Proinveste.

Casado, pai de três filhos e avô de sete netos

JLPolítica – Qual a significação do alargamento da João Bebe Água?
MS – Significa acessibilidade para o turista, que precisa de acessibilidade e acolhimento. Significa conforto, segurança. Se não fizermos isso, não adianta atrair turistas.

JLPolítica – Nem empresas?
MS – Principalmente. É óbvio que para as empresas temos a possibilidade e a variante da BR-101, que está a seis quilômetros de São Cristóvão. Mas a João Bebe Água é fundamental para o turista.

JOÃO BEBE ÁGUA
(O alargamento da João Bebe Água) significa acessibilidade para o turista, que precisa de acessibilidade e acolhimento. Significa conforto, segurança. Se não fizermos isso, não adianta atrair turistas”

JLPolítica – Ter na Praça São Francisco um Patrimônio da Humanidade pela Unesco colabora com alguma coisa no PIB turístico da cidade?
MS – Não contribuiu ainda, mas precisa contribuir. O título, a chancela da Unesco, tem que ser utilizada como diferencial na captação de recursos. Esse título inseriu São Cristóvão num clube restrito do Brasil: apenas 13 cidades, das mais de 5.500 do Brasil, têm esse título. E essas 13 cidades têm uma associação, da qual agora fazemos parte, e está fazendo pressão no Congresso para que os recursos sejam acessados de forma diferenciada, para que entre um município que tenha esse título e outro que não tenha a gente tenha prioridade. Então, o título é fundamental. E a sociedade também precisa compreender isso. É uma obrigação do poder público mostrar a importância desse título.

JLPolítica – O turismo religioso tem sido muito discutido. São Cristóvão não poderia criar algo nesse sentido para fazer valer a força das suas tantas igrejas?
MS – Já recebi aqui em São Cristóvão o proprietário da maior operadora de turismo religioso do Brasil, o que manda turistas brasileiros para o Vaticano, para Lourdes, para Fátima e traz de Portugal para Salvador. E quando ele traz esses turistas para a Bahia, diz que vão conhecer a obra de Irmã Dulce, mas não disseram a ele que Irmã Dulce começou a vida religiosa aqui em São Cristóvão. Então, trouxe ele aqui, mostrei-lhe a cidade, ele ficou entusiasmado. Uma equipe da TV Aparecida, que tem um vínculo com essa operadora, virá para cá em setembro, e vai vender São Cristóvão para o Brasil e para o mundo. Também recebi o deputado Moritos Matos, que faz essa ponte do turismo religioso. Então, estamos nos preparando para atrair esse público, já que temos as duas maiores festas religiosas do Estado: a do Senhor dos Passos e a Procissão de Corpus Christi.

Marcos Santana, PMDB, tem 57 anos

JLPolítica – Por que o município não restitui o Festival de Arte de São Cristóvão, tão famoso por mais de 30 anos e hoje extinto?
MS – A versão de 2017 vai acontecer entre os dias 1° e 3 de dezembro. Já nos reunimos com João Augusto Gama, secretário de Estado da Cultura, e com representantes da UFS. Devo assinar essa semana o decreto de criação da comissão e já temos uma minuta da programação pronta. Tenho R$ 150 mil, que foram aportados pelo deputado João Daniel, para esse evento. Não terá a magnitude de antes, mas vai ser o embrião do renascimento desse festival.

JLPolítica – O que os deputados Fábio Reis e João Daniel têm feito para ajudar de Brasília ao município?
MS – Tem feito muito. Ambos aportaram recursos significativos para projetos do município. Mas não são só eles: Adelson Barreto e Laércio Oliveira também. Foram os quatro únicos que ajudaram o município.

TURISMO RELIGIOSO
“Já recebi aqui em São Cristóvão o proprietário da maior operadora de turismo religioso do Brasil, o que manda turistas brasileiros para o Vaticano, para Lourdes, para Fátima e traz de Portugal para Salvador”

JLPolítica – Qual o prejuízo para a cidade com o fato de ela ter perdido, por morte e cassações, tantos prefeitos nos últimos 25 anos? Isso impactou na sua autoestima administrativa?
MS – Não tenha a menor dúvida de que impactou muito. Se hoje as pessoas ainda me abordam com comentários do tipo “você pegou uma bomba”, tem a ver com isso. A classe política da cidade perdeu a credibilidade diante do povo e também diante dos poderes Judiciário e Executivo estadual. Então, tem uma contribuição negativa muito forte.

JLPolítica – O senhor não planeja ser cassado ou morrer, não é?
MS – Não. Não estou planejando ser cassado e os planos da morte quem faz não sou eu (risos).

Especializado em Gestão Urbana e Planejamento Municipal

JLPolítica – É uma utopia uma ou realidade seu interesse reanexar a São Cristóvão o Mosqueiro e Zona de Expansão?
MS – É uma realidade. Um fato que a gente vai ter que enfrentar, porque é um desafio. E Aracaju vai ter que aceitar, porque nesse momento a ação está em grau de recurso, por Aracaju, no STF. Então, hoje, aquela área é de São Cristóvão. Ponto. A decisão é em nosso favor.

JLPolítica – Uma das argumentações do município de Aracaju é a de que São Cristóvão tem problemas, é pobre, e não poderia assistir a contento aquelas regiões. O que o senhor teria a dizer disso?
MS – São Cristóvão pode ser pobre do ponto de vista da institucionalidade. Precisa, de fato, se preparar para administrar aquilo ali, porque a reincorporação daquela área vai trazer 30 mil novos habitantes, que nos tira de um patamar baixo de arrecadação de FPM imediatamente. Ou seja, sairemos de 2.8 para o último grau, para o grau de Socorro. Devo multiplicar por três a nossa arrecadação, que hoje é em torno de R$ 7 milhões, R$ 8 milhões, e passar a R$ 21 milhões. Além do que virá com royalties, pois eu volto a ter limite com oceano e os royalties de plataforma continental. O ITBI, IPTU. Então, a briga é para administrar um tesouro, um recurso novo. E este tesouro pertence a São Cristóvão.

ZONA DE EXPANSÃO
"A reincorporação vai trazer 30 mil novos habitantes, que nos tira da baixa arrecadação. Sairemos de 2.8 para o grau de Socorro. Devo multiplicar por três a nossa arrecadação, que hoje é em torno de R$ 7 milhões, R$ 8 milhões, e passar a R$ 21 milhões”

JLPolítica – O senhor acha que Aracaju perde?
MS – Já perdeu. Ela precisa retomar. Mas tenho certeza de que São Cristóvão manterá a decisão.

JLPolítica – O PMDB pode ou não fazer o sucessor de Jackson Barreto ou não?
MS – Deve fazer o sucessor. É óbvio que o Brasil está passando por uma crise econômica e política seriíssima sem precedentes, mas acredito que o governador Jackson Barreto tem condição completa de retomar as rédeas do desenvolvimento, ser criativo e, apesar das dificuldades, mostrar que o projeto iniciado em 2007, com a eleição de Marcelo Déda, precisa continuar.

JLPolítica – E seria com Belivaldo como candidato?
MS – É o que tem se apresentado. Eu sou do PMDB e torço para que seja Belivaldo, por ser um bom correligionário.

Assegura o retorno do Festival de Arte:já para este ano
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