
Maria Celi Teixeira Barreto: segundo a neta Maria Celi, mulher que “trabalhou e criou seu espaço com firmeza e personalidade”
[*] Maria Celi Teixeira Barreto Valente
Dividir o nome com minha avó materna sempre me pareceu mais do que uma coincidência. Com o tempo, fui entendendo que carregar o nome Maria Celi também é conduzir a marca de uma mulher que me ensinou, pelo exemplo, algumas das coisas mais bonitas que sei sobre a vida.
Neste 1º de maio minha avó faz 81 anos, mas a idade nunca conseguiu defini-la. Limitá-la. Maria Celi tem uma vitalidade rara, uma alegria natural e uma presença que marca a ela e a muitos. À frente da Celi Mall Decor, ela segue trabalhando com entusiasmo, curiosidade e sensibilidade, acreditando em Sergipe como um lugar de beleza, de bom gosto e de sofisticação.
Sempre me impressionou vê-la sustentar com tanta energia um negócio que gera trabalho, emprega pessoas e carrega, em cada detalhe, o seu olhar. Mas talvez uma das coisas que mais me inspire nela seja a força silenciosa e destemida com que sempre escolheu ser ela mesma.
Ainda muito jovem, esta minha avó teve a coragem de casar-se com meu avô e ir com ele para Jequié, uma cidade baiana que ela nem conhecia, para ser a grande parceira de vida dele desde o começo. Mas Maria Celi Teixeira Barreto nunca confundiu amor com anulação.
Maria Celi e seu núcleo familiar: Alda Cecília, à esquerda, e Ana Cecília à direita, Luciano Barreto, e o bisneto Luciano ao centro, netos e o genro Wagner Bravo Mesmo construindo uma história ao lado dele, fez questão de construir também o próprio caminho, o próprio olhar, a própria identidade. Fez faculdade ainda grávida do meu tio Luciano Júnior, numa época em que as mulheres ainda precisavam de muita coragem para insistir no próprio caminho.
Empreendeu, trabalhou e criou seu espaço com firmeza e personalidade. Isso sempre me marcou profundamente nela. A verdade é que o que mais me marca nela vai muito além do trabalho. Sempre vi em minha avó uma combinação rara de força, fé, alegria e delicadeza.
Ela é profundamente espiritualizada. É uma mulher religiosa, mas de uma religiosidade leve, acolhedora, luminosa. Sem excessos. Na Construtora Celi, onde eu trabalho com meu avô, ela chega benzendo as pessoas, benzendo a equipe, espalhando proteção, paz e cuidado. Há pessoas cuja fé aparece no discurso. A dela aparece na forma como ela toca a vida dos outros. E toca fundamente.
Essa minha avó também me ensinou algo que considero raro e valioso: a não viver me lamentando. A olhar para a vida pelo lado bom, mesmo sem negar as dores. Ela me ensinou a entender que leveza não é superficialidade, mas escolha. Que alegria não é ingenuidade, mas força interior.
Minha avó enfrentou dores muito profundas, e talvez por isso mesmo sua luz tenha tanto valor. Depois de perder meu tio Luciano Júnior, uma perda imensa e irreparável, ela poderia ter se fechado na própria dor. Mas fez algo ainda mais bonito: transformou sofrimento em acolhimento.
Três gerações: Alda Cecília, Maria Celi, a neta adolescente, e Maria Celi, a avó: família que sabe reconhecer os afetos Passou a visitar mulheres que também haviam perdido seus filhos, levando consolo, fé, escuta e presença. Como quem entendesse, no mais íntimo do coração, que sua dor também podia servir de amparo para outras pessoas. Como quem quisesse honrar, diante de Deus, o propósito da sua vida aqui na terra.
Esse é um dos traços mais bonitos dela. Minha avó nunca viveu apenas para si. Ela sempre entendeu que a vida ganha outro sentido quando toca a vida do outro. E faz isso sem alarde, sem dureza, sem precisar ocupar o centro. Faz com a sensibilidade de quem sabe acolher. Com a ternura de quem enxerga a dor humana sem perder a esperança.
É impossível falar dela sem falar também do Instituto Luciano Barreto Júnior. Ali existe muitíssimo da alma dela. Meu avô leva a força, a direção estratégica, a firmeza de quem transforma visão em caminho. Minha avó leva a sensibilidade, o acolhimento, a escuta, a dimensão humana que abraça os jovens de um jeito muito próprio.
Na nossa família, sempre a vi como um eixo emocional. A pessoa que, com sua presença, consegue devolver equilíbrio, leveza e alegria às situações. Cresci vendo nela essa capacidade de sustentar a todos sem pesar o ambiente, uma inalienável capacidade de trazer esperança sem negar a realidade, de seguir em frente sem endurecer o coração.
As duas Celi: avó e neta em compromisso de féEla me ensinou que é possível viver com doçura e, ao mesmo tempo, com força. Que sensibilidade não é fragilidade. E que há uma potência enorme em permanecer leve, mesmo depois de ter conhecido tantas dores.
E há também tudo aquilo que faz dela tão única no cotidiano. Minha avó é alegre de verdade. Ela canta, dança, ri, faz graça. Ela encanta. Ama a Bossa Nova e fez eu amar também. Sempre que ouço esse tipo de música suave, sou imediatamente levada até ela.
Lembro dela dançando, sorrindo, cantando, completamente à vontade com a própria felicidade. Existe uma música que ela canta muito para os jovens do Instituto, que não é bem Bossa Nova, e que, de algum modo, parece resumir sua essência: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz”. Essa música tem a cara dela porque é uma pessoa que jamais teve vergonha de ser feliz, de demonstrar emoção, de ser sensível, de carregar a vida com leveza.
As minhas lembranças com ela são cheias dessa mistura de amor, cuidado e alegria. Lembro dela chegando com suas brincadeiras, dizendo que era o lobo mau procurando a Chapeuzinho Vermelho. Lembro dela insistindo para eu tomar suco, comer fruta, me cuidar.
As duas Celi II: avó e neta que miram-se nas ações uma da outra e se complementaLembro-me dos conselhos. E uma das imagens mais vivas da minha infância é vê-la andando em volta da piscina com a Bossa Nova tocando alto, cantando e dançando com uma felicidade tão espontânea que parecia iluminar tudo ao redor. Até hoje, quando penso nela, penso nessa alegria leve, verdadeira. Sem esforço.
E existe ainda uma beleza muito simbólica em tudo isso: meu avô deu o nome dela à Construtora que fundou há 57 anos. A Construtora Celi carrega o nome de Maria Celi como homenagem à mulher que esteve ao lado dele desde o começo.
Eles se casaram muito jovens, começaram a vida cedo, enfrentaram desafios e seguiram juntos. Em um momento decisivo, quando ele saiu da sociedade com a família dela e fundou a própria empresa, escolheu levar com ele o nome da mulher que era sua companheira de vida. Sempre achei isso profundamente bonito, porque revela algo maior do que uma mera homenagem. Revela reconhecimento. Revela parceria.
Mas, para mim, o mais importante nunca foi apenas o fato de meu nome ser o mesmo que o dela, nem o fato de o nome dela estar em uma grande história. O mais importante é tudo aquilo que ela gravou em mim. Minha avó me ensinou a ter fé, a confiar em Deus, a olhar a vida com mais leveza, a não me paralisar na dor, a entender que alegria pode ser uma forma de coragem, que sensibilidade pode ser uma forma de força e que viver com beleza também tem a ver com bondade.
Celebrar hoje os 81 anos de Maria Celi é celebrar uma mulher que empreende, acolhe, sustenta, inspira. Para mim, ela será sempre mais do que minha avó. Será sempre uma referência de vida que eu tenho. Porque há pessoas que nos amam. E há pessoas que, além de nos amar, nos ensinam a viver. Minha avó é uma dessas.
[*] É formada em Administração de Empresas pelo Insper, São Paulo, e atua como diretora Imobiliária na Construtora Celi, onde trabalha com o avô Luciano Barreto há cinco anos.








